25 de Dezembro de 2011

Um Conto Frio

Eu sentei num dos bancos do primeiro vagão. Era um trem coreano, desses com ar condicionado. Fazia calor já às sete da manhã, então foi um alento receber aquela lufada gelada no rosto.

Se eu disser que o havia reparado, estarei mentindo senão pela ocasião em que trocamos algumas palavras pela primeira vez. Tinha um cabelo curto e austero, e vestia-se como um homem um pouquinho melhor que um pobretão. Vai ver que foi por isso que me sentei no trem como alguém sem memória ou raciocínio, no transe onde embarcam milhares de pessoas durante os dias úteis, enquanto vão ao trabalho: é preciso voar para bem longe, pelo menos a cabeça, e ele era um qualquer.

Ele, tão logo parou, de pé, a minha frente, me disse:

“É a última vez que vejo você, isso se você não anotar meu telefone agora e me ligar depois. Toma.”

Era um papel amarrotado. Se eu fosse um homem jamais daria a alguém com quem quisesse sair um troço daqueles. Peguei. Não estava assustada. Não sei por que, mas aquele homem me acalmou desde o momento em que estacou seus pés na composição, com os braços esticados e firmes nas hastes de apoio no teto.

Olhei-o sem mover um músculo da minha face serena e polar, com meus olhos arregalados que já espantaram toda sorte homem, ainda bem. Ele também não mostrava qualquer sentimento. Chega a ser difícil, quase impossível, contar da calma que senti naquele instante. O frio do vagão era o daquele cara parado na minha frente.

Desci em Inhoaíba. Minha quietude foi evaporando como as gotas de orvalho daquele dia novo. O calor foi molhando meu pescoço, depois meus braços. Suava, e não era de suar, nem no verão, sobretudo na alvorada. Fui ao posto de saúde. Entrei como paciente, não como funcionária, o que acontecia desde o meio do ano, quando arrumei um contrato lá. Estava tonta, prestes a desmaiar.

O dia foi de muito trabalho. Liberaram-me, mas quis ficar no plantão. Muitos mutilados, devido a um acidente de ônibus na Avenida Cesário de Melo. Minha cabeça voou como acontecia diariamente no coletivo.

Ao final da tarde saí do trabalho falando somente o necessário com meus chefes e o pessoal da portaria e da limpeza. Quase morri atropelada! Uma van, o que mais poderia ser? Subi a rampa e cheguei à bilheteria da estação. Desci rapidamente as escadas. Estava calma e vítrea novamente.

Um homem velho tentou puxar conversa. Eles são umas bestas, esses anciãos. Toda mulher que anda sozinha por essa cidade sabe que esses pervertidos decrépitos querem sexo. Só. Tentam de tudo; chegam a investir com as viciadas e vagabundas que vivem ao léu em qualquer lugar dessa cidade. E eu nem preciso falar para rechaçá-los. Meus olhos são um florete, eu sei. Meu pai me dizia isso, e estava certo. É como se me sentisse como uma lagarta entrando em seu casulo, um piloto de monoposto colocando o cinto de segurança e o volante ao se acomodar no cockpit. Minha pele parece se ressecar, minhas axilas param de arder e sinto paz. Quando minha metamorfose termina, ninguém se aproxima para falar baboseira, nem mulher nem homem.

O trem corria veloz, porém mais lento que o coreano da manhã. Estava calor, mas eu sempre pego o contra-fluxo. Os trens vespertinos que vêm da central estão abarrotados, tristes e insalubres; os que vão para a central são menos desagradáveis. Mas só de espantar o velho, sentia-me bem melhor.



Em Vasconcelos, o ar estava sutilmente mais frio. Uma coroa de nuvens carregadas ornava o cume do outeiro da garagem de ônibus; mais ao sul, as nuvens desciam o maciço da pedra branca como uma corredeira vertendo água em câmera lenta. Frio, pensei.

Maquinalmente, puxei do bolso o papel dobrado que recebera do homem austero, cerca de oito horas atrás. Havia um número de telefone escrito à caneta preta. Era um celular, com certeza, e da mesma prestadora que a minha.

“Sou eu”, disse, sem poder reconhecer a mim mesma.

“Eu sei. Eu sei onde você mora também. Eu vou lá agora se você não se opuser.”

“Pode ir. A chave está no vaso de plantas que fica no vestíbulo. Quem chegar primeiro abre a porta e espera o outro chegar.”

A essa altura, eu não sabia onde estava, tampouco o que sentia; não dava para afirmar, também, se eu queria um aventura, da qual precisava tanto, ou se havia alguma coisa naquele homem que me atraía. Eu me lembrava do olhar. De como eu me identifiquei com tudo que vi entre a boca e a testa. Nem me lembro do resto, pensei, enquanto andava pelas ruas do meu bairro. Falei sozinha: “calma, assim você vai se encontrar com um estranho em seu próprio apartamento”. Lembrei que era pobre; sua roupa foi ressurgindo, assim como o cabelo e a pele. Era um homem quase bonito, que eu pegaria no final de uma noite tentando seduzir coisa melhor.



O vestíbulo estava vazio, mas a chave do meu apartamento já não se encontrava emaranhada na samambaia. A porta estava aberta. Ele estava de costas para a porta, olhando o tráfego pela janela, ou a frente fria que avançava.

“É a quarta vez que te vejo”, disse.

“Pra mim, é a segunda”.

“Eu sei. Você nunca havia reparado em mim. Sentei do seu lado ontem, no banco da plataforma. Só consegui ver direito suas pernas; não deu pra olhar seus olhos.”

“Óculos escuros”, respondi caminhando na direção da cozinha. “Não reparei mesmo, não estava no clima para reparar alguém esperando o trem.”

“Eu não vim aqui para conversar. Você é frígida, ou pelo menos assim se mostra pro mundo. Não sei... você é sincera, deve ser frígida mesmo.”

Ele teve que falar tudo isso subindo o volume da voz paulatinamente, pois eu me dirigira à cozinha; bebi água e peguei uma cerveja para ele. Senti-me levemente ultrajada, mas indefesa. Meu olhar não gelaria o dele, que parecia ser um espelho do meu, ou o que sempre quis ver nos olhos de alguém.

“Você é um louco! Vai me matar? Quem é que diz essas coisas a uma mulher? quem é que aborda uma mulher como você fez?”, inquiri, deixando a lata de brahma na mesinha de centro.

Eu me sentia fácil, ou melhor, cúmplice daquele homem. Uma frívola intimidade revestia nosso diálogo. Talvez pelo ultraje de ver um estranho me chamar de frígida em minha casa não pude perceber o austro invadindo a sala. Estava quente (eu me sentia quente).

“Eu sou o que você viu. Nem banho eu tomei desde aquela hora em que te dei meu número. Nesses últimos três dias eu percebi o que era você: uma mulher concisa, apertada - não estou falando do seu sexo; você espera muito de um homem, o que é pouco para mim: o frio.”

“Seja mais específico”, disse pegando a cerveja na mesa e pondo-a em sua mão, sem sequer dar atenção à declaração que ele acabara de fazer. Ele me perseguiu, ou será que me viu por coincidência?

“Obrigado. Você odeia discutir, você odeia a falta de intimidade do verbo. Você odeia os falastrões, você odeia os radialistas, os cantores e os professores; Você não suporta a eloquência, a retórica. Você responde a tudo com seus olhos, seus olhos tristes, como uma ribalta descortinada, mas que ninguém vê os artistas do espetáculo, pois o tablado está que é uma bruma só, uma fumaça inexpugnável.”

Começou a chover, a temperatura caiu. O homem me beijou. Transamos no chão, debaixo da janela, onde os pingos e o vento batiam em minhas costas nuas.

1 comentários:

VELOSO disse...

Um belo conto que prende até o final!